5 de jul de 2014

A Estrela Líquida (parte 2)

Conto: Gustavo Ramos
Ilustração: Simon Taylor 







Parte 2

Há quase uma década atrás, numa noite de estréia, o estômago da jovem se dobrava e se partia, sendo expelido aos poucos em vômitos convulsivos. A perfeita execução dos passos daquela coreografia eram antes de tudo a moeda que permitiria à jovem alçar voos em palcos internacionais. Ela no banheiro, em agonia. As altas autoridades do estado esperando aflitas o início da apresentação.
            Dez minutos se passaram do que deveria ser o início da dança, e surge na frente da moça, ainda contorcida no chão do banheiro, o maestro que tanto temia. Em sua mão enluvada portava um pequeno vidro escuro daqueles que se usam para conter remédios. Ofereceu a ela, que bebeu o num trago. A dor se foi e ela levantou-se rapidamente. Então, experimentou uma sensação de delírio maravilhosa, todo seu corpo era um só sentimento livre, uma vontade de levitar, de voar e cair com a leveza da pena de um pássaro.
            Ela enfim entrou no palco e dançou. Encantou aqueles olhares ansiosos, arrancou-lhes lágrimas. Não pensava mais nos passos da coreografia, mas naquele sentimento de puro êxtase causado pelo mover de seu corpo, pelo livre transito que sentia entre o palco e as almas daqueles que a assistiam. Ao termino da apresentação, as palmas duraram quase dois minutos. Não eram para a orquestra dedicada, nem para os outros componentes do balé, eram sim para ela, pois aquela plateia nada olhava a não ser o seu riso saboroso e seu vestido azul, salpicado de gotinhas brancas.
            Ao fim dos abraços e sinceros agradecimentos, ela adormeceu ali mesmo no teatro. Percebendo o profundo cansaço da jovem, o maestro avisou a todos que lá a deixassem, pois voltaria ao Teatro na manhã seguinte e poderia conduzi-la ao hotel próximo.
            Ela acordou e sentiu seu corpo envolvido por um grande véu suave, que acariciava lhe inteiramente. Pensava que aquilo não era mais do que a extensão do êxtase experimentado na noite anterior. Sorriu, e fechando os olhos lembrou-se daqueles olhares curiosos e maravilhados da plateia, até aperceber-se da imagem que figurava no espelho logo a frente. A imagem não mostrava seu corpo lânguido, nem o rosto doce, de bochechas sem vida e sorriso acalentador, tampouco seu grande olhar curioso. Tomada por um assombro horrível, viu a imagem de um pássaro de um bico fino e enorme calda verde. Seu pescoço era feito de um azul tão brilhante que parecia machucar seus olhos ainda sonolentos.
            O maestro alemão chegou sem que percebesse e contemplava a cena sem surpresa. Parecia estar há muito tempo ali, a deliciar-se com a beleza da ave. Sem delicadeza a colocou num pequeno cativeiro e a jovem, em sua bela e infame prisão de penas, passa o dia e a noite no claustro do porta-malas de um velho Sedan, e de madrugada é levada ao que deveria seu cativeiro eterno, no Passeio Público, junto a tartarugas e outros pavões.
O pouco sabor da vida reduzia-se a encantar os olhares dos transeuntes, principalmente das crianças, que sempre lhe sorriam com sincera alegria. Era numa sensação parecida àquela encontrada no palco de um grande teatro. Com frequência recebia visitas do maestro, que nada a dizia, que nada lhe dava, apenas a olhava, absorto, compenetrado.
A última visita do maestro acontecera naquela noite. Ele pela primeira vez quis tocá-la. Embalou-a em seus braços e beijou sua cabecinha. Mas ela, tomada por um desejo feroz mergulhou seu bico no peito do velho maestro, com força que não acreditava ter, conseguindo perfurar sua pele e penetrando o interior das cavidades daquele coração amargo.

Ela deu seu ultimo grito de ave, sentindo um frio imenso tomar seu corpo, pois aquele envoltório de penas azuis ia desmanchando-se aos poucos. Percebia vagarosamente a volta da sua nudez de menina, aquela mesma menininha que um dia brilhou nos palcos do Guaíra. Ela então chorou novamente o líquido branco e brilhante, a única herança da maldição do maestro. Chorou, pois talvez não desejasse matá-lo. Talvez o amasse, por ter permitido a vida naquele claustro delicioso de olhares infantis e penas maravilhosas.
Emílio ouviu a história inerte. Mal percebia que o sol quase desabrochava do horizonte. Ele a ajudou a enterrar o maestro no gramado em frente ao cativeiro e a limpar as manchas de sangue. Ainda com as mãos cheias de terra o guarda olhou para o lado, para despedir-se da moça, mas já não encontrou ninguém. Ela se desmanchou no ar e desapareceu como a lua, naquela manhã de abril.

(Fim)
           


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