3 de out de 2012

Zero!

Conto: Paulo Biscaia Filho
Ilustração: Daniel Gonçalves




1963. Em um certo país na América do Sul, um presidente com afinidades com o socialismo e pressionado entre forças soviéticas e estadunidenses vacilava em que rumo tomar. Seus assessores sugeriram uma aliança com o país do mesmo continente. Ele negou. Ao perceber que forças militares poderiam interromper seu governo, o Presidente decidiu se aproximar dos soviéticos em troca de instalações de maior poderio bélico. Os militares salivaram com o poder que eles receberiam de presente.

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Ela estava com o telefone na mão. Silêncio do outro lado. Sentiu seu coração parar de bater enquanto esperava por uma voz. Sua respiração também falhava. Morrer era inevitável. Se não fosse agora, certamente depois. Minutos depois. Ela sabia disso, mas tinha que falar ao telefone. Uma voz responde do outro lado: ‘Sim, Sra. Presidente?’

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1964. O presidente permaneceu no poder com o apoio dos militares que não compreendiam possíveis diferenças entre extrema esquerda e extrema direita. Vermelho, verde ou azul. O que importava é que eles tivessem poder. Com a instalação estratégica de 265 ogivas nucleares eles possuíam muito mais do que poderiam imaginar.

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‘Almirante, entramos em alerta nível 4’, ela disse depois de engasgar com uma súbita apnéia. ‘Positivo. Aguardo sua ordem de ataque, Sra. Presidente.’. Ela olhou para frente. Debaixo de um quepe, o Ministro das Forças Armadas vacila olhar, mas respira fundo e com um aceno de cabeça confirma. Do outro lado do telefone, a voz do Almirante suspira: ‘Posso ter sua confirmação, Sra. Presidente?’

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1965. O teste da bomba nuclear soviética Chagan é transferido do Campo de Explosões para A Economia Nacional na Sibéria para uma região desértica na América do Sul. Rebatizada de Diamantina, a ogiva é detonada abaixo da superfície, no dia 15 de Janeiro daquele ano. Seu resultado criou uma cratera de 960 metros de diâmetro e 465 de profundidade. A colaboração entre cientistas dos dois países para o teste fortaleceu a capacidade de tecnologia nuclear naquele país sul-americano.

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Ela não estava no cargo por mais de quinze dias e não pode deixar de achar irônico que sua primeira decisão presidencial seria também sua última. O submarino Guararapes estava a milhares de quilômetros dali, mas a voz do Almirante estava clara como se estivesse ao seu lado. Na verdade, ela nunca se sentiu tão perto de alguém falando ao telefone. ‘Almirante, pode receber os códigos de lançamento….’

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1970. O presidente daquele país estranho morre em decorrência de um ataque cardíaco enquanto assistia a final da Copa do Mundo do México. A KGB e o centro de inteligência local suspeitaram de ação da CIA naquele morte. Se foi ou não uma ação de espionagem, a CIA não contava com a vitória daquele país na Copa de futebol. O Tricampeonato ajudou a fortalecer a ideologia comunista do governo. Um novo presidente foi eleito indiretamente, nos mesmos moldes da União Soviética.

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‘Delta - Zulu - Tango - Romeu…’

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1972. Grupos de guerrilha opostos ao regime comunista são capturados e torturados na Base de Investigações do governo, estabelecida em uma grande cidade à beira-mar, cujas praias paradisíacas haviam servido de capital do Império 160 anos antes. Alguns membros das guerrilhas conseguiram escapar e pediram asilo político nos Estados Unidos, onde foram novamente torturados quando a CIA supôs que se tratavam de agentes-duplos.

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‘Golf - Victor - Alfa - India. Confirma, Almirante?’

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1975. É construído o primeiro submarino nuclear da América do Sul. Nos dez anos seguintes, a frota aumenta e ultrapassa duas centenas de embarcações. Cada uma carregava ogivas suficientes para dizimar um continente.

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‘Código de ataque confirmado, Sra. Presidente. Ordem de ataque autorizada para o submarino Guararapes e repassada às demais embarcações posicionadas. Que viva a ordem e progresso de nossa grande pátria, Sra. Presidente!’
‘Viva’, ela respondeu do outro lado segurando seu suspiro e encontrando energias para dar firmeza em sua voz.

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1990. A União Soviética é desfeita e ruma em direção contrária aos ideais Comunistas. A China e aquele país da América do Sul são os únicos a permanecem com o mesmo regime. Apesar de manifestações da população pela criação de eleições diretas, aquele país abafou opiniões contrárias ao regime através do fortalecimento de suas reservas, fruto de uma surpreendente administração rigorosa na agricultura e economia interna. Naturalmente, eram dados maquiados. Havia uma crise econômica crescendo e o país certamente estava caminhando em direção a uma falência completa.

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Ela lembrou de seus primeiros dias na política, décadas antes. Tudo parecia ser mais poético, mais ideológico. Ela era incapaz de encontrar um adjetivo em qualquer língua humana capaz de descrever o que significava aquele momento.
- ‘30 segundos para o lançamento. Vinte e nove… vinte e oito…’

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2002. Na esperança de recuperar as perdas econômicas de duas décadas, o Partido apontou um radical de esquerda como Presidente. As relações comerciais com dos demais países das Américas e Europa foram cortadas em um embargo sem precedentes. A China negou qualquer apoio às decisões daquele Presidente sul-americano e se apresenta neutra. O Presidente segue com determinações que tornam as relações diplomáticas cada vez mais insustentáveis. Diversos focos de corrupção de políticos relacionados com as poucas empresas privadas remanescentes forçaram o Presidente a estatizar de vez toda a indústria e comércio do país. Revoltas da população são oprimidas com ataques do exército. O poderio bélico construído no país ao longo de quatro décadas assegura uma posição de soberba dos militares e de segurança ao Presidente.

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- ‘Oito… sete… seis… cinco… quatro… três… dois… um…’

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2012. O Presidente é assassinado em sua casa por agentes da CIA. Para entrar em seu lugar, foi apontada a primeira mulher como Presidente daquele país. Sua carreira política havia iniciado como torturadora de guerrilhas na Base de Investigações. Desde então foi ganhando respeito dos militares que permaneciam secretamente como fonte de todas as decisões políticas. Assim que assume o poder, dá a ordem imediata de encaminhamento de centenas de submarinos nucleares para a América do Norte.


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Em meio a redemoinhos retorcidos de pensamentos, ela imagina se suas decisões seriam diferentes se a história fosse diferente. Se houvesse eleições diretas, se não houvesse crescimento no poderio bélico, se houvesse ideologia…
Ela percebe naquele momento que a única ideologia que comandava aquele país há cinco décadas era… PODER. E haveria demonstração de poder, mas não sem represálias que certamente dizimariam milhões. ‘Milhões de quem? Quem são esses milhões? Qual a diferença? Eles não tem nenhuma voz mesmo.’, concluiu corretamente.
Alguém na América do Sul disse, há milhares de anos, que 2012 seria o fim. O fim dos tempos, ou o fim de paradigmas, ou o fim de ideologias. O que quer que fosse, o que via depois iria mudar a história de vez. Suas inócuas divagações foram interrompidas pela voz do Almirante gritando:
- ‘Zero!’


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

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