12 de out de 2012

Uma Sátira

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Danilo Oliveira





Ela esta lá sentadinha no biarticulado. Entra um rapaz pela porta 1, ela o olha e vê seus cabelos raspados, suas mãos sem anéis, calça suja de moletom surrado. Entra, ao mesmo tempo, um rapaz pela porta 2. Ela o olha caminhando meio rapper até a porta 3... porta 4...sentando-se: touca preta, sem anéis, calça jeans surrada.Vê alguma relação entre eles, mas inconsciente disto,  relaciona-os apenas ao restante da população pobre que anda de ônibus.
Um charme típico do menino mau. O de verdade que ataca para se defender. Ela é assim também, daí a identificação. Mas ela é mulher e nela as coisas se apresentam de maneira diferente: vestimenta, ironia, silêncio, e outras armas psicológicas da classe média.
Atrai-se pelo estereótipo tanto quanto todo o ibope da Cidade de Deus. Acha esta atração tão repreensível quanto engraçada pela mesma razão que nos faz rir das legendas em francês do filme brasileiro.
É como se a França tentasse traduzir nossa malandragem, o que temos de melhor. Nosso único trunfo sobre o biquinho e a poesia franceses. É como se toda a educada burguesia francesa do XIX não superasse o apelo sexual da pele morena brasileira. Como se sexo superasse toda a história da literatura e do teatro e das ciências e da filosofia e...e se apresentasse naquela fala que é sempre tão informal quanto sábia (Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra). Há muita sapiência na simplicidade, sabia? A relação entre nome e identidade é problema da psicologia, psicanálise, sociologia, literatura, filosofia e etc. desde o XVIII, sabia?
Não pensa isto tudo, só reage com olhares esquivos misto  de temor e atração. Olha até um ponto em que percebe que o olhado percebe estar sendo olhado. Até o ponto em que percebe que aquele ser humano é humano e, como ela, vê. Lembra do positivismo? Ela não. A partir daí já não é mais seguro observar, o observador interfere na ação do objeto e altera seu curso.
O primeiro rapaz para na porta um. Em pé. Começa a falar com o cobrador e ela não consegue ouvir nada. Estranha que a conversa não acabe logo. E vagarosamente (calma...ainda não) vagarosamente, forma a convicção de que algo está errado.
Continuam conversando. Nenhum deles sorri, não são amigos. O rapaz aperta os botões do painel, o motorista não o impede. Eles não olham ao redor, não procuram ajuda. Não acaba logo, não é mero pedido de informação. Não se cumprimentam com aperto de mãos, não se conhecem.
Ocorre a ela que pode descer do ônibus. Mas ele me viu olhando, pode perceber que desci com medo e ficar ofendido se não for bandido. Para não ofender, guarda o iphone no bolso falso, devagar e sem olhar ao redor, como se nada acontecesse, para não ofendê. Pensa se tem algum dinheiro, resolve guardá os vinte pila dentro do tênis, na dúvida. Está chegando seu ponto, faltam dois tubos. E se descer? Vai ser muito ofensivo. E se mudá de lugar? Nem pensar. Perguntar se tá tudo bem seria idiota. Gritá pro ônibus fugir pode ser mentira. E ligar para a polícia só se fosse retardada.
Em contra-partida, se ficar e ele for bandido, respeitou o cara errado. Mas também não pensa isto claramente, só reage. Reage pelo respeito. Não por respeito à pessoa do malaco. Por medo de ser vista como desrespeitosa. Onde já se viu? Tão bonitinha e sentando de perna aberta? Tão bem-educada e falando assim?
“O decoro as vezes nos coloca em paradoxos”, diria o teatro do séc. XVIII. Brincadeira, ele os forja. Lembrou-se dos limites, e isto pensou, não só reagiu. Os limites das coisas e das crenças. A bosta (menina bonita também fala palavrão) da tolerância que impede (impede?) a verdadeira existência das várias culturas. Tudo pode estar certo então nunca posso estar certa. Ninguém nunca está errado porque não há verdade absoluta. É feio xingar, filha. Porque? Por que é muito bonito.
E se o outro rapaz estiver junto no assalto? Não, não, muito desrespeito.
Olha em volta, ninguém parece assustado. Guarda o dinheiro sob a meia, devagar, pra não ofender. E se o outro estiver junto? Não, ele é só malaco. Pensa no computador que não dá pra salvar. Pensa no que fará quando ele chegar perto. E se o outro estiver junto? Credo. E se ele for só um malaco? Se tentar estuprá-la, vai chutar o saco, sem ofensa, claro. E se o outro estiver junto? Não pode nem ser malaco em paz, tadinho. Vai pedir para por o pinto na boca e, nada pessoal mas... vai mo-orde-er a-até-é arrancar. Nem que ele a mate. E se o outro tivé junto? Claro que ele tá, olha lá ele com a mão no bolso. Estupro, perdoe-me pela exagerada alteridade, mas não. Algumas verdades existem.  Se ele não pará de olhá em volta é porque tá junto. Se insinuá desrespeito sexual ou ofensa a algum querido meu, desculpe-me, senhor, vou ter de reagir. Apesar de que ele já insinuou, tá insinuando. Tá. Então, se realizá, oficialmente, de fato, desrespeito sexual a mim ou ofensa a algum querido meu, sinto muito. Tá olhando com muita segurança pra todo o ônibus. Algumas verdades existem. Tolerância é uma verdade estúpida. Olha em volta, todo mundo parece assustado. Só impressão.
Mas realizá oficialmente implica o que? Tipo quando começá a tirá a  própria calça ou me acertá um murro? Não...algo mais forte. Tipo arrancá a calcinha e atirá? Não dá pra estipulá um limite, tem que vê na hora. Mas a hora é agora, vai fazê o que? Tolera e vê no que dá. Ainda não é hora. Eles ainda não fizeram nada. Claro que fizeram, tão assaltando o onibus! Mas nem sei se são os dois. E se o outro só for suspeito porque é moreno? E se for ofensa sexual contra um querido teu e não contra você? E se for alguém tipo uma amigona da faculdade com quem você não fala há anos? Daí acho que não faço nada. Acho que ia tentá atrair a atenção pra mim, vê se ele me tolera. Na verdade, si atraísse a atenção pra mim, podia me fudê, né? Tolerância não é pra todo mundo. Acho que ia, sei lá, ia tentá pegá o telefone e ligá pra polícia. Mais será que isso não é intolerante? Ia tentá falá pro cara não fazê aquilo. Não sei, ui. Que foda. A gente não sabe quem é querido né?
Puta merda! Minhas últimas fotos tão no notebook! Não tenho cópia! Filha da puta.
Tá nervosa, parou de olhar os dois. Eles se esqueceram dela. Olha pela janela. Olha, olha. Pensa, pensa.
Chegô meu tubo. “NINGUÉM DESCE!!!!!!” – ele gritou. Mas ela já está na porta com o pé dentro do tubo. Corre, corre, corre. Olha pra trás, não vê nada. Corre. Entra no no Estação olhando pra trás apavorada. Corre, corre. Não precisa mais correr. Caralho. Anda rápido. Vô tê que atravessa este shopping intêro agora. E se tiverem me seguido. Olha pra trás. Não tão. Nem faria sentido mesmo. Olha pra trás de novo. Iam deixá de assaltá o ônibus inteiro só por minha causa?
Olha pra trás. Para e olha. Puta merda. Caralho. Ligo pra quem? Faço o que?
Vai embora sem ser registrada nos o índices de violência urbana.  

Danilo Oliveira
30 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com.

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.

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