22 de out de 2012

Eu, o filho

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Dea Lellis

Meu mundo era um salão sem janelas onde ficavam as camas, os armários, a TV e a cozinha. O sanitário, contíguo a esse ambiente, era ventilado por um exaustor embutido no forro. Eu nunca havia visto o céu, nem uma árvore, nem pisado na grama; nada disso. Distraía-me com os livros e DVDs trazidos esporadicamente por meu pai. Eu costumava questioná-lo insistentemente sobre o mundo exterior, contudo, sua resposta limitava-se a encerrar o assunto. Invariavelmente afirmava algo do gênero:

- Não se deixe levar pelo que você lê e assiste, são visões idealizadas, românticas.  Não há lugar para a inocência nesse mundo, não há lugar para fragilidades.

Nos lábios de meu pai a palavra fragilidade tinha a conotação da maior das virtudes. Todavia, eu já estava livre dos pontos e ataduras, não dependia mais de soro e minha coordenação motora evoluíra satisfatoriamente. Os argumentos de meu pai sucumbiam à minha inquietação e, por mais que eu sinalizasse aceitar suas idéias, secretamente ansiava por escapar daquele recinto.  Os obstáculos consistiam em duas portas, separadas por um corredor escuro.  Ambas permaneciam trancadas o tempo todo, mesmo com meu pai em casa. Finalmente, em um filme de aventura, descobri um modo simples e efetivo de fugir: remover o pino das dobradiças. Aguardei que meu pai saísse para trabalhar. O primeiro contato com a luz foi doloroso, protegi meu rosto com as mãos até as pupilas se adaptarem.  Observei minha casa pelo lado de fora e percebi que outrora ela possuía janelas, haviam sido vedadas apenas por dentro. Um longo caminho de pedriscos conduzia até um portão de madeira, mas antes de alcançá-lo, fui atraído pelo gramado em frente a casa. Enquanto meus pés descalços acariciavam o verde, dezenas de ninfas saltitavam; uma onda de minúsculos insetos. Essa distração que me fez ignorar a aproximação sorrateira de um cão. Esquivei-me por sorte da primeira investida do animal e tentei escapar correndo para a grade coberta de hera. Escalei uma mureta próxima ao portão, mas o cachorro alcançou-me e mordeu meu calcanhar com toda sua voracidade.  Desesperado, arremessei-me por cima da cerca e caí na calçada de pedra. Meu corpo foi perfurado pelas lanças do gradil, meu pijama estava em trapos, meu corpo coberto de sangue.

A rua estava deserta, dei alguns passos e recostei-me em uma árvore em busca de alento. Ali, no gramado entre o gradil de minha casa e o meio-fio da rua, eu adormeci.  Despertei com uma dor aguda em minha fronte e as gargalhadas sádicas das crianças que atiravam pedras em mim, meia dúzia de meninos. Aparentavam pouca idade, dez anos no máximo. Tentei erguer-me do solo, mas recebi uma violenta saraivada de pedras que minou minhas forças. Encolhido e com as mãos sobre a cabeça, recebi chutes, pauladas, pisões em minhas costas.  Um garoto aproximou-se erguendo um paralelepípedo o mais alto que podia – minha última lembrança daquela tarde.

Meu pai diz que foi sorte ele ter chegado enquanto eu ainda respirava. Os agressores não estavam mais ali, apenas meu corpo destruído. Ele disse que me fará dormir profundamente. Pode demorar a conseguir novas partes, por isso precisarei dos aparelhos para sobreviver. Ele lamenta que eu não o tenha escutado, muito provavelmente herdarei sequelas de minha transgressão.  Minha aparência deve piorar e pode ser necessário que eu mude de sexo. Não o questiono, nem me revolto. Ele é um bom pai e um bom médico. Ele me ama, ele me fez, ele sabe o que é melhor.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

Dea Lellis
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/metalpreto 

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