14 de jun de 2012

Lorena (o filme)

Baseado no conto de Daniel Gonçalves, inspirado na ilustração de Arthur d´Araujo
Direção e Adaptação: Carol Winter
Direção de Fotografia: Eli Firmeza
Direção de Arte e Maquiagem: Ana Bellenzier
Edição: Carol Winter
Pós: Lilian Döring
Produção: WTF?!filmes
Trilha: Troy Rossilho
Assistência de Produção: Bruna Barboza

Atriz: JANAINA MATTER

Figuração: Felipe Araújo / André "Pé" Dedecek / André Quadros / Felipe Pinheiro / Isabella Bicalho / Danilo Custódio / Vinícius Sgarbe / Victor Hugo


Lorena*
Conto de Daniel Gonçalves inspirado na ilustração de Arthur d'Araújo

Absorta em seu cigarro, Lucia desce a ladeira sem elegância alguma, equilibrando-se sobre as sandálias plataforma. Próximo dali, ecoa a algazarra dos foliões de carnaval. Um carro encosta; carro imponente; e ela vai se debruçando junto à janela da porta traseira. O homem mascarado deposita trezentos Reais no decote da moça e abre-lhe a porta sem delongas. A quantia supera o lucro de uma noite inteira de programas, Lucia embarca.
– Prazer, Lorena! – ela se apresenta, estendo a mão para ser beijada.
– Prazer, Lorena! – ele retruca, beijando-lhe as costas da mão estendida.
– Misterioso... hummm...
– Que bom que isso lhe agrada...
Ele ordena ao motorista que siga; ela observa que esse também está mascarado.
– Coloque essa máscara, por favor, Lorena.
– Tudo bem! Fetiche de carnaval... espera! Essa máscara não tem olhos!
– É uma precaução, por minha privacidade; mas se preferir, eu paro o carro e você desce aqui...
– Não, tudo bem!
Alguns minutos rodando na escuridão pareceram uma eternidade. Ainda de olhos vendados, Lucia foi conduzida gentilmente casa adentro e acomodada em um sofá por seu anfitrião.
– Não tire a máscara, vamos brincar assim por enquanto.
Pela cabeça de Lucia, passam várias hipóteses: de deformidades faciais a complexos fálicos. Ela ouviu uma garrafa sendo aberta e o tilintar de taças.
– Beba esse vinho, é excelente!
– Nesse calor, eu cobiçava uma cerveja bem geladinha...
– Ah! Mas o vinho é uma bebida tão mais sensual, não me faça essa desfeita, sim?
Foram alguns goles da bebida adulterada; a partir daquele momento, ela estaria totalmente vulnerável. Outros mascarados adentraram a sala e ajudaram a carregar Lucia, ou Lorena, até o porão - uma antiga adega erigida em pedra. Despida, deitaram-na sobre um altar, ornamentado com bizarros simbolismos. A moça contorcia-se em delírio. O rito começou com a entoação de um mantra – YOG-SOTHOTH AI’F ZHRO OGTHROD – repetido continuamente. Uma urna foi aberta e um odor nauseabundo alastrou-se pelo recinto. Da caixa, ergueram um saco de tecido roto que continha uma cabeça, aparentemente taxidermizada, de um animal de pelagem grossa, bocarra feroz e olhos vidrados. Com uma adaga, cortaram sete vezes a moça. Cortes superficiais. Para cada incisão, uma única gota de sangue, a ser precipitada na boca da cabeça grotesca – sete gotas. Depois, posicionaram a cabeça entre as pernas de Lucia. A respiração da meretriz gradualmente ritmava-se ao mantra. Quanto maior a força na evocação das palavras, mais profunda tornava-se sua respiração; seu ventre contraia-se violentamente. Ouviu-se um bufar poderoso; o monstro piscou os olhos e começou a respirar; o corpo de Lucia agora lhe pertencia. Um segundo recipiente foi aberto, tratava-se de uma caixa térmica com gelo, que guardava um coração humano. O mestre da cerimônia depositou o órgão na boca da criatura, que mastigou e engoliu a oferenda.
Lucia acordou com o ruído do ventilador de teto, em um quarto de hotel barato. Ao lado da cama, encontrou uma bolsa com tanto dinheiro que desistiu de contar. Aturdida, desceu as escadas; na recepção, descobriu que sua diária estava paga. Perguntou sobre seu acompanhante, mas uma vaga descrição foi tudo que obteve.
Alguns meses depois, Lucia morreu. Complicações no parto.

* conto publicado na rodada 2 do blog, dia 9/2/2012. Clique aqui para ver a ilustração do Arthur

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