24 de jun de 2014

Ossos gelados

Conto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Liber Paz


Só mais alguns minutos. Mas ela sabe que durará mais. À medida que a rajada sibila e eletrifica seus nervos por um instante, percebe que a rua está deserta. É a única alma presente naquele corredor longo e estreito, cercado por muradas de prédios residenciais. Sabe disso, porque não é a primeira vez. Talvez sequer seja a última. Como uma caçadora, a espera é tudo. O frio e as horas demoradas, embora incomodem, são suportáveis. A expectativa é a chave que mantém seu motor ligado. Ela sente. Ele voltará. E, quando isto ocorrer, se entregará por inteiro.
A primeira vez foi um acidente. Ela tropeçou. Tinha terminado um noivado com um homem bom, mas incapaz. Voltava para casa tarde da noite, a rua vazia e escura, com o chiado do vento como companhia e o frio lembrando-a de que não se tratava de um sonho. Ou um pesadelo. Ela tropeçou em um buraco na calçada e caiu. Após atingir o chão, ouviu um som diferente. A corrente de ar emitia uma frequência aguda, para, em seguida, silenciar. A ausência de barulho era tamanha que sentiu em uma realidade suspensa, um tempo parado. Sentiu os ossos gelarem. Ainda estava caída no chão quando o ataque veio.
O homem arfava, segurando-a com força, explorando seu corpo com suas mãos. Tentou gritar, mas seus dentes não se mexeram. O sangue bombeado pelo coração acelerado não surtia efeito em seu corpo engessado. A rua estava deserta. Nenhuma janela acesa. Em algum lugar, a lua... Então, de novo, ouvia a frequência aguda. Em seguida, o silêncio, que seria rompido com o uivo.
Retomou os movimentos de seu corpo, se arrastou na calçada de pedras portuguesas úmidas e enroscou os braços em portão de um prédio. Levantou a cabeça. Então, viu.
A criatura deveria ter dois metros. As sombras o engolfavam, a luz passando apenas pelas extremidades de seus pelos. As pernas e os braços pareciam moldados em pedra. O longo e afunilado focinho deixava escorrer a saliva e o sangue. Em sua mão, erguida como um brinde maldito aos céus, a cabeça decepada do homem que a atacara. O animal a vê e joga o membro na direção contrária. Ela só sente os ossos gelados e nada mais. Após encará-la, a fera solta um ruído estrondoso de êxtase e corre para as sombras.
Demorou para recobrar os sentidos. As pessoas que a acudiram, entre moradores e policiais, lhe contaram que só ela repetia, sem fôlego: "O lobo... o lobo o matou... O lobo me salvou..." Após buscas, não encontraram nada similar à sua descrição. Mas ela sabe o que viu. Pode sentir nos ossos.
Não conseguia dormir. A lembrança era vívida, mas não o suficiente. O lobo estava lá. Ela sabia. A presença dele a fazia se sentir mais forte, calorosa, com uma intensidade incomum. Queria tocá-lo. Mais do que acariciar seus pelos, desejava mergulhar sua cabeça neles. Sentir o calor de seu corpo e beijá-lo. Os sonhos eróticos aumentaram. Logo, a libido passou a ser aliviada em fantasias solitárias. Precisava de mais. Sair da loucura e partir para uma ação mais direta e fatal. Em outras palavras, deixar-se apaixonar.
Desde então, duas semanas se passaram. A vigília era severa em seu horário e nas condições climáticas. Nada importava, nem os comentários. "Cuidado com a mulher de branco!" ou "A noiva do lobisomem tá nua.", ouvia de forma indireta ou não da vizinhança. Nada importava, exceto reencontrar o animal e se entregar a ele. O frio, embora incomodasse, era suportável. O que era o oposto do que queria. Sabia que ele reaparecia quando a som ficasse agudo e o vento, intenso em seu corpo. Quando estivesse quase morta. Então, estaria pronta para ser tomada pelo lobisomem, aquecendo seus ossos gelados pela alma.

Liber Paz
Site: liberland.blogspot.com.br/

Daniel Russell Ribas 
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Participa do grupo “Clube da Leitura” no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro e é editor da Editora Oito. Também participou da antologias “Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1” e “Caneta Lente Pincel” (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra “David Lynch - o lado obscuro da alma”. Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea “A Polêmica Vida do Amor” (ed. Oito e meio).
dribas2.blogspot.com

Um comentário:

  1. Estamos no clima.
    Os medos foram soltos pelo Id que sussurra nas sombras.
    Algo vem te buscar.
    E isso é apenas o começo.

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