28 de jun de 2014

Onde não sopram os ventos

Conto: Sheilla Liz
Ilustração: Ilustre Z




Acordo.
Confuso e tonto percebo estar dentro de um caixão.
O pesadelo de qualquer cidadão, ser enterrado vivo!
O pânico parece durar para sempre. Quantos gritos cabem na eternidade?
Procuro me acalmar. Respiro profundo. E assim, percebo que meu corpo (corpo?) podia deslizar como seda entre as barreiras do receptáculo fúnebre. Num átimo sou cuspido pra fora do túmulo. A sensação é de ter sido parido pela terra seca.
Confuso. Parido. Morto.
Observo os arredores marmóreos do cemitério. Tento me localizar, como foi que morri? Apenas vácuo em minhas lembranças.
Vivo. Interrogação. Morto.
Deve ter sido uma morte abrupta, instantânea, fulminante. Uma morte da qual nem percebi a aproximação.
Inquieto e ainda zonzo, assimilo outra presença ali. Um ser velhaco e corcunda. Sua aparência repugnante me assusta. A vontade é de gritar, mas eu já havia gritado tanto... Então, de maneira educada pergunto ao horrendo fantasma:

-Estamos no mundo espiritual?

Ele me encara silencioso e eu aproveito para observá-lo mais atentamente. Era uma figura medonha. Seus olhos, dois poços. A dor inteira do mundo estagnada neles. A boca, uma minhoca torta, cercada de linhas que se cruzavam como ruas em uma cidade suja e apertada. O nariz, um buraco rotundo que interligava aquele espaço cheio de sombras. No cocuruto cheio de falhas, os fios brancos acenavam ensandecidos, como se estivessem dentro de um redemoinho, porém observo que não soprava vento algum naquele espaço. O ar mais parado do que nunca e os cabelos agindo com vontade própria. Quando o velho resolve falar sua voz demonstra ser tão terrificante quanto sua figura:

-Sujeito esperto. Alguns demoram anos para entender. Outros nunca. Como a criança ali.

 Ele aponta para o fantasma de um menino olhando o céu. Uma figurinha quase invisível entre as cruzes, estátuas, tumbas, flores úmidas e secas, anjos sorrindo e chorando. O velho prossegue em sua horripilante tonalidade vocal:

-Já conversei com o pobre. Tentei explicar que estamos mortos, mas o menino só escuta o que quer! Gosta de falar das constelações, estrelas... Acha que logo a mãe vai pô-lo para jantar e dormir. Então, se o fantasminha é feliz assim, na ignorância, deixa o bobo lá, não é?

Assumindo ares de professor, ele remexe as bochechas forçando um sorriso preto. Continua:

 -E afinal, quem sou eu para dar conselhos? Louco, raivoso e agitado. Expelindo bile até pelos ouvidos! Odiando Deus e todo mundo! Parece já fazer tanto tempo... Veja minha lápide! Emmanuel Marcelos de Costa e Silva. Morto em 1964. Aliás, meu jovem, você que acaba de morrer, em que ano estamos? Faça as contas, por favor, quanto tempo eu resido aqui?
-Desculpe, não posso ajudar. Estou confuso. Não consigo lembrar quem eu era, nem como morri...
            -Não se preocupe. Amnésia fantasma. Logo você lembrará. Enquanto isso, por favor, deixe-me sozinho e praguejando, como é de meu costume.


Afasto-me dali, sem saber muito bem o que fazer e para onde ir. Eu me sentia vivo, mas estava morto. E agora?
A criança fantasma ainda estava lá, observando a imensidão celeste. Existiam estrelas naquele lugar, pelo menos isso! Aproximei-me do garoto e falei:
-Eu também gostava de olhar o céu quando criança.
O menino acena com um riso infantil. Quanta inocência ali! Seus olhos, dois diamantes. A tez lisa e serena. Uma folha em branco, como se todos os problemas do mundo não existissem ou pudessem ser resolvidos num passe de mágica. Quando ele falou sua voz pareceu tão pura quanto à água que brota da nascente:
-É a coisa mais linda de ver em todo o mundo. Você sabia que somos poeira delas? Das estrelas? Foi meu professor de ciências que falou. E eu poderia ficar aqui a vida inteira, mas logo a mamãe chama: Emmanuel, Emmanuel, larga dessas estrelas, o jantar está esfriando!
-Que coincidência... Emmanuel é também o nome do senhor logo ali.
O menino não parece perplexo.
-Muita gente tem o mesmo nome. E qual é o seu?
Tento puxar da memória. Qual era mesmo meu nome? Pedro? Altair? Roberto? Astolfo? Montalvo? Bonifácio? Euclides?  
Não. Nada. Espere... Um fio de lembrança: Emmanuel, Emmanuel, larga dessas estrelas, o jantar está esfriando! Minha mãe também falava assim comigo!
A razão desaba sobre mim como um raio.
Eu sou Emmanuel Marcelos de Costa e Silva!
Eletrificado com a nova informação, compreendo que aquele velhaco tenebroso e amargurado era eu. Assim como também era eu aquele menino cheio de luzes no olhar!
Atemorizado vejo que o cemitério vai ficando repleto de meus espectros. Quanto mais lembro, mais eles aparecem. Centenas. Milhares. Fantasmas de todos os meus dias e horas, de todas as minhas idades e fases. O bebê chorando pelo peito, o menino sonhador de estrelas, o estudante de matemática brilhante, o marido desinteressado, o pai ausente, o homem frustrado, o velho amargurado, o louco solitário.
Percebo que fui muitos e paradoxalmente apenas um. Aquele que agora lembrava tudo e assistia a história de como dois olhos feitos de diamantes transformaram-se em dois poços estagnados de dor.
 Horrorizado repriso meus momentos vividos e encenados. Os erros esfregados na minha cara. Todos os atos e destinos que me tornaram o homem rabugento, repulsivo e desumano que ninguém amava. Recordo todas as noites e dias e de cada instante rasgo um pedaço meu, até não restar mais nada.
 E exausto de todas as paixões, visões e lutas, deito sobre meu túmulo. Desejo apenas dormir. Esquecer. Suavemente sou engolido pela terra. Sei que ao acordar estarei completamente confuso, tonto e vivenciarei de novo minha rotina de morto. Era sempre assim, eu acordava, conversava com meus fantasmas, minhas angústias e esperanças, até descobrir que eu tinha sido todos aqueles e nada podia fazer para mudar o modo mesquinho que vivi.
Antes de apagar novamente na inconsciência da morte, pergunto ao universo como posso ser liberto deste doloroso ciclo. Ele responde que não há como lutar contra moinhos onde não sopram os ventos.
Então descanso, mas nunca em paz.


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