26 de set de 2012

Contos da Cripta apresenta: Mais olho que barriga

Conto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Lord Velprost



Guardião da Cripta: Olá, crianças! Aqui é seu amigo, o Guardião da Cripta, e eu tenho uma receita de matar, hi hi hi hi hi. É sobre um homem que descobriu uma das maiores delícias que existe: A Morte! Então, preparem seus sacos de vômito para esta refeição macabra que eu chamo:   
     
Mais olho que barriga
Brown Glass odiava cheesecake. Como importante crítico culinário, achava que deveria ser o mais isento possível. Acreditava que qualquer falha em um experimento gastronômico deveria ser culpa de seu perpetuador, não da matéria-prima. O material não tinha emoção ou racionalidade, existia somente para ser manipulado por mãos hábeis e se transformar ou em um espetáculo digno de êxtases proustianos em sua boca ou em uma manifestação da morte ceifada por uma criatura sem alma; uma merda preparada por um ignóbil, enfim. Claro que não escreveria "merda" em seus textos. Era um cosmopolita. Mais do que um intelectual brasileiro, era um novaiorquino do Upper West Side. Escreveria merde, se arrastando na primeira sílaba tônica.
No entanto, havia alguma coisa em seu ser mais íntimo por que nutria desprezo, nojo: cheesecake. O que era aquela coisa? Era um salgado, mas parecia um pudim de tofu com mais consistência. Era enjoativo, e não doce, sequer o contrário. Só o contato com o interior de sua boca bastava para que uma agressão, uma blitzkrieg contra seus sentidos fosse iniciada. Pedia desculpas para ir ao banheiro e vomitava além do que consumira durante o dia, como uma garota bulímica de 14 anos. Ele arrancaria sua língua se tivesse coragem ou outra maneira de sustento. Afinal, era um cosmopolita e, como tal, só sabia praticar uma única atividade. Ele era um crítico culinário, mééééérd!
Este segredo fazia parte de uma área da mente de Brown Glass que ele alcunhou como "o baú da vergonha". Os constrangimentos legados cumpriam a tarefa de relembrá-lo da necessidade de discrição. Sim, ele era membro da família de artistas considerados loucos e misantropos. Seu tio Seymour se matou num quarto de hotel ao lado da mulher deitada na cama. Seu sobrenome, Glass, um caco infeliz em uma peça perfeitamente estruturada. Glass; uma vitrine para a loucura, quase uma marca do anticristo. Tudo aquilo era verdade, mas, agora, eles estavam mortos. Até o escritor barato que popularizou sua família deixara de ser alimento para a mente para se tornar comida para vermes. Ele, o crítico culinário, não o louco de vaudeville, faria sua história.
Brown Glass, além de autoridade jornalística, também estava noivo de Gertrude Scheizen. Apesar do nome de origem alemã, ela era tão wasp quanto Woody Allen, Martin Scorsese ou a Estátua da Liberdade. Sua voz lembrava o zunido de uma vespa, mas isso vinha com o pacote, junto com os infinitos jantares festivos, comentários azedos a respeito de arte contemporânea e a temperada frigidez. Mesmo frustrado sexualmente, Glass sabia que este comportamento era um sinal de aprovação social e canalizava a energia acumulada em palavras impressas semelhantes a um estupro grupal.
Um dia, Brown Glass chegou à redação e, após deixar seu cachecol de cashmire e paletó tweed verde-oliva de Savile Row com a secretária, recebeu desta um envelope. Na parte da frente se lia a inscrição: "The Reaper - Para terminar a noite com um nocaute". Glass de imediato achou a chamada típica de um boteco do cais e jogou o bilhete na lata de lixo. Pegou o jornal e o leu, com destaque para a seção de Economia, porque ele e Gerdie receberiam primos de Wall Street esta noite. Terminou e foi ao banheiro se masturbar. Ao retornar, notou que o envelope que tinha atirado ao esquecimento havia feito o trajeto até a parte central de sua mesa. E estava aberto. Antes que pudesse reclamar, uma misteriosa curiosidade subiu em sua coluna como um carrapato, e Brown Glass se viu lendo o carta em transe. "Venha conhecer a cozinha do Chef Eli Bathory, cujos pratos são de morrer". Talvez fosse seu desejo destrutivo de crítico ou pura ânsia suicida, mas, após a leitura, Brown Glass pegou o telefone e cancelou o jantar com sua esposa e os primos, porque um trabalho inesperado havia surgido.
Após algumas voltas, o crítico encontrou o restaurante. "The Reaper" ficava localizado em uma rua deserta, escura e enevoada. Ele entrou e foi recebido pelo chef, aparentemente o único funcionário presente. Glass achou isso um insulto para uma personalidade como ele. Contrariado, pediu o prato principal "para acabar logo com isso!" Bathory depositou na mesa um grande, amarelo e ameaçador cheesecake. Glass quis se levantar e sair daí, mas não poderia dar o braço a torcer. Cortou uma fatia pequena e a levou à boca. E uma sensação semelhante a um orgasmo cultural atingiu suas papilas gustativas, correu para o sistema nervoso e se manifestou em sua virilha. Em lágrimas, declarou ser o melhor prato que provara em sua vida, e pediu mais um. E mais um. E mais um. Quando se deu por vencido, perguntou para o chef qual era o segredo. Eli Bathory se inclinou e, em seu ouvido, sibilou: "Almas humanas frescas." "Como assim, almas humanas frescas?", riu Glass. "Os olhos são a janela da alma. Então, eu arrumo mendigos, os mato e sirvo no meu restaurante. Os olhos são para a receita do cheesecake." "E o resto?" "Bom, temos a noite do churrasco à brasileira..."
Glass fugiu. Não ligou para a indigestão ou para o fato de que agora seria alvo de um "serial killer". Só queria chegar em casa. Sem fôlego, abriu a porta e a fechou com força. Então, ouviu barulhos vindos do quarto. Pegou uma faca e se deparou com Gerdie Scheizen esparramada na cama, nua. Ao redor dela, os primos de Wall Street, pelados e assustados. Logo atrás, uma câmera gravava a cena para posteridade. Gerdie engatinhou em direção a ele e explicou que eles só estavam relembrando quando nadavam sem roupa no acampamento de verão. A mente de Brown Glass se fez um lago cristalino e, em um ímpeto, eviscerou os parentes masculinos de sua noiva ordinária. Após nocautear Gerdie com o cabo da faca, Brown Glass ligou para o "The Reaper": "Alô, senhor Bathory? Como vai? Adorei o restaurante, mas não é por isso que estou ligando. Eu queria saber se vocês fecham tarde. Porque esta noite eu pretendo finalmente comer a minha mulher."

Guardião da Cripta: Pobre Gerdie. Mas mulheres ricas sempre entram na faca, não é? Quanto a Brown Glass, não se preocupem. Ele acabou de criticar sua última refeição e dizem que ela foi... ELETRIZANTE! HA HA HA HA HA HA HA!!!... 


Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  



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