28 de mai de 2012

(1) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 LabEugênia Castello Andrea Tristão


Parte 1

Enquanto lavo a louça, lembro-me de como eu matei cada um deles. As imagens voltam em flashs, desordenadas – o veneno dissolvendo-se no café do velho; a carne da perua esportista sendo dilacerada pelas mandíbulas do jacaré, a minha falta de ar correndo na Saldanha Marinho seguida da aspirada na bombinha de oxigênio.
As migalhas concentram-se na peneira sobre o ralo. Por causa dos restos, lembro o que eu comi ontem. Como estava bom o strogonoff, pena que não tinha batata palha. É preciso esfregar com força as panelas, para limpar o molho que encrosta as beiradas. Para isso uso um produto desengordurante e esponja de aço. Passo com força nas panelas até que fiquem praticamente lisas novamente. Os restolhos que são capturados pela triagem eu arremesso no lixinho rente a pia, para que não entupa o ralo e faça a água subir. Eu odeio quando a água sobe, porque acaba sujando louças que não estavam tão sujas. E daí tem que enfiar a mão no meio da água com detritos boiando para liberar a peneira e a água poder escoar. Tudo isso por causa da editora que não gosta de literatura pulp.
Curitiba não é uma cidade de muitas editoras e a única que existe – chamada Aveia & Mel, não gosta do que eu escrevo.
Ela é a peneira que não deixa a sujeira escoar.
Já apresentei romances que considero fantásticos, como um que terminei a pouco tempo, chamado “Samambaias gigantes assassinas”, de uma história que se passa na Confeitaria das Famílias, onde os clientes são devorados pelas plantas enquanto tomam café. Deu um puta trabalho escrever este livro, passei meses frequentando o local, anotando as características dos clientes, e, é claro, aproveitei também para experimentar todos os doces.
A editora sugeriu que eu escrevesse um livro de crônicas. Mas como farei uma coisa dessas? Meu olhar já foi estragado pelo pulp. Vejo zumbis e monstros por toda a parte. E não estou me referindo à minha vizinha, a que passeia com poodles mutantes na Osório – parecem capivaras. Falo dos seres da imaginação mesmo. A realidade é muito bizarra, basta dar uma passeada pelos corredores do Edifício Tijucas ou ficar atento às lamúrias no elevador.
Tenho vários livros engavetados, morando ao lado de minhas pílulas soníferas. Entre eles um de contos chamado “Manual de sobrevivência a zumbis do Batel Soho”. São histórias de mortos-vivos Geeks que renascem no cemitério da Água Verde e caminham em direção aos shoppings, ansiosos por novidades da Apple. Não sei como a editora não gostou deste. Chego até a suspeitar que não esteja na cidade certa.
Incrível como o macarrão endurece e vira uma pasta grudenta quando seca. Fico imaginando esta gosma dentro do estômago. Borrifo desengordurante e abro a torneira da água quente. A fumaça me lembra do café do primeiro escritor que eu matei. Foi na cafeteria Metrópolis.
Decidi que a única maneira de ser editado pela Aveia & Mel seria eliminando todos os meus concorrentes. 

(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
o blog  www.contosdapolpa.blogspot.com. 


Marco Novack

Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br


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