22 de abr. de 2012

42 – B

Texto: Diego Gianni
Ilustração: Haydee Uekubo




Não hoje.
Quem diria que duas palavrinhas tão simples pudessem ter tanto significado?
Certamente, não minha vizinha. O pássaro. O abutre. O alvo.
O que ocorre é que, praticamente todos os dias, luto com alguns fantasmas. Os meus fantasmas.
Alguns podem chamar tais fantasmas de consciência. Aquela vozinha solitária que fica na sua cabeça discursando surdamente sobre o certo e o errado, o bem e o mal, blá-blá-blá. 
Eu? Eu não tenho isso. Não é contra o certo e o errado que eu luto. É só contra o certo. Com o que julgam que é certo. Sou um defensor da democracia, por assim dizer, porque a maior parte das pessoas acredita que o certo é não matar. Matar é pecado. É uma transgressão. É cruel. Então, não mato.
Mas os fantasmas? Esses diabinhos me aparecem nitidamente todos os dias, todas as noites (ah, especialmente nas noites!) e ficam me atormentando. Sussurram incansavelmente em meus tímpanos: seja você, seja você, seja você, e eis que eu fecho os olhos e respondo não hoje, não hoje, não hoje.  
Na boa, não tenho culpa de ser assim. De ser quem sou. É o diabo do meu cérebro que não me permite sentir remorso. Sou capaz de agredir qualquer pessoa, exceto uma: eu. Não consigo me culpar. Até gostaria. Gostaria de experimentar a sensação da culpa de prejudicar alguém. De interferir em uma vida. Mas não dá, não sou eu, para mim não é o certo.  Sou o pacato vizinho do 42-B. O bom moço. O cordial cavalheiro que nunca se incomoda em esperar os vizinhos para dividir o elevador comigo. Espero, sim. Abro a porta. Sorrio. Sorrio e me pergunto quantos filhos da mãe iguais a mim existem no mundo. Cínicos. Dissimulados. Os melhores atores do mundo jamais merecedores de um prêmio. Quanta injustiça.
Em minha defesa (não que eu precise me defender, já que escrevo estas linhas unicamente para os meus fantasmas e demais pessoas que sei que não existem, e se você está lendo isso, é provável que você não exista), nunca “prejudiquei” ninguém aqui do prédio. Não, não é sábio levar a caça para o local que você dorme.
Mas claro, como nada é perfeito, tem o pássaro. Minha vizinha de porta, uma velha que mora sozinha e passa a maior parte do dia debruçada na janela deste quarto andar. Da janela do quarto, eu a vejo. Vejo sua cara horrenda de tédio e reflito sobre o tremendo favor que eu faria a ela se...Bom, vocês entendem.
A cara da velha é arroxeada, esquelética, o nariz fino e pontudo, a velha me lembra um pássaro solitário quando se debruça na janela. E se ela não está na janela, está no telefone falando com sua voz alta e irritante. Eu escuto tudo. Escuto a televisão dela também, em um volume ensurdecedor.
Daí os fantasmas me aparecem (é, vocês mesmos) e me motivam a saciar minha fome, minha sede incompreensível. Fico me revirando na cama e faço o possível para ficar preso a ela. Privo-me da única coisa que me dá certo prazer, em prol da sociedade perfeita. Que não é perfeita. 
Sou o vizinho do 42-B, que é querido por todos. Sou um clichê ambulante. Um predador que não pode caçar por receio de ser preso. É, talvez eu sinta alegria com a liberdade. Que não é liberdade. Que também não é perfeita.
Se tenho medo de fraquejar? Adivinhem. Não seria a primeira vez, e sinceramente, acredito que vá acontecer. Mais dia, menos dia, bato na porta da bruxa e peço uma xícara de açúcar ou qualquer porra de desculpa cinematográfica do tipo. Quando o abutre me virar às costas, entro no apartamento dela, tranco a porta e pronto: o jantar está servido. O prato do dia é um pássaro entediado, com um rosto que você olha e sabe que nunca foi bom.
Mas não hoje. Sou um bom ator. Um grande ator. Finjo que sinto empatia e que tirar a vida de uma pessoa é inconcebível, sobretudo a de uma pobre velhinha que mora sozinha e passa horas e mais horas debruçada na janela, olhando para o vazio. Somente eu enxergo o vazio que há dentro de sua alma. E como eu desejo livrar essa alma.
Mas não hoje. 
Libertar essa alma deste mundo de hipocrisia em que vivemos. Mais, dia, menos dia, os fantasmas me arrastam até a porta da velha, dou uma batidinha de leve, ela abre, dou meu melhor sorriso e suplico por um pouco de açúcar. Quem negaria? Eu sou um amor!
Mas não hoje.

Diego Gianni
Nasceu em 1.982, na capital de São Paulo. Mudou com a família para Curitiba ainda na infância e começou a escrever peças de teatro em 2.004. No período de seis anos, escreveu mais de cinquenta peças teatrais que foram apresentadas por diversas companhias de teatro em vários estados. Ganhou prêmios de melhor texto conferidos pela Cena Hum (Academia de Artes Cênicas) e também pela Fundação Cultural de Curitiba. 
Tem contos publicados em jornais e revistas e posta textos semanalmente em blog´s e sites, tais como tracasemcedilha.blogspot.com ; acontececuritiba.com.br. 
Recentemente, ganhou o concurso literário promovido pelo evento Risadaria (1º bienal do humor realizada no país), tendo seu conto exposto no mural da Bienal de São Paulo. Está lançando seu 1° livro "Dores crônicas que nem te conto". Atualmente cursa jornalismo.

Haydee Uekubo 
Outros trabalhos de ilustração e design: cargocollective.com/haydeeuekubo

20 de abr. de 2012

Calabresa com borda de cream cheese

Texto: Paulo Biscaia Filho
Fotografia e direção de arte: Eli Firmeza
Estrelando: Olívia D' Agnoluzzo e Carol Winter




Cheguei em frente ao prédio com as portas de ferro pichadas com letras intraduzíveis.
Acionei o porteiro eletrônico.

Lembrei da cantora de blues nas manchetes. Depois de anos de críticas a suas performances desleixadas, sua morte por aparente overdose fez os jornais lembrarem de seus anos de ouro como diva da música.

Ouvi sua voz abafada pelo porteiro eletrônico com mal contato. Um zunido e a porta se abriu. Entrei no saguão. Fui até a frente do elevador e pressionei o botão com o miolo erodido por todos os dedos que décadas antes arranharam sua superfície.

Aquele escritor fez tantas obras que determinaram o pensamento de uma geração de rebeldes. Agora estava caminhando para livros de auto ajuda. Ninguém entendia. Ninguém mais lia. A auto ajuda caiu por terra junto com seu corpo quando tombou do vigésimo sexto andar. A polícia ainda investiga a possibilidade de suicídio. Ele não deixou nenhuma nota. Por mim, cada um de seus últimos livros já era uma despedida. Suas primeiras obras hoje são estudadas e cultuadas.

O elevador chega. Entro e procuro pelo quinto andar. Depois de um solavanco, começo a subir.



Nos anos 50, a beleza daquela atriz estampava cartazes e revistas de cinema. Suas pernas eram adoradas como deuses legítimos. O whiskey e um vício por bolinhos de chocolate a transfiguraram. O laudo médico decretou que ela havia se engasgado com um brigadeiro e não havia ninguém por perto para ajudar. Havia. Agora sua beleza era eterna.

Chego no quinto andar e a porta do elevador faz um barulho assustador. Vacilei em sair. Eu sempre vacilo em algum momento quando faço isso. Não vou mais vacilar de agora em diante. Caminhei pelo corredor de parede chapiscada até o apartamento 502. Toquei a campainha.

Não havia ninguém no halfpipe como ele. Seus giros de 960º levavam o público ao delírio. Abandonou o skate e o trocou por uma Bíblia. Pregava o amor de Jesus em troca de doações. Seu atropelamento fará com que ele conheça Jesus com mais propriedade. Ninguém conseguiu anotar a placa do carro que atravessou o corpo a 180Km/h.

Ele abre a porta. Eu estendo a pizza calabresa com borda de cream cheese. Ainda nervoso, anuncio seu destino:
-  São R$32,50.


Eu sei quem é ele. Tudo o que sei sobre cinema devo a ele. Estico o pescoço e consigo ver prêmios sobre uma prateleira. Palma de Ouro, Globo de Ouro, Oscar, Kikito! A poeira cobria todo o brilho das estatuetas. Em uma parede, recortes de jornal emoldurados mostram fotos de apertos de mão com presidentes, companhias de lindas pin ups, grupos de ícones do século XX. Seu nome não é mais lembrado nem mesmo em círculos de acadêmicos. Ele comerá a pizza. Em dois ou três dias, os vizinhos irão reclamar do cheiro. A polícia arrombará essa porta sem dificuldade. Seu corpo será encontrado sob moscas e vermes. Os jornalistas saberão. Seu nome será lembrado. Seus filmes serão revistos. Sua obra será novamente cultuada.





Agora devo ligar para um certo vendedor de planos de saúde. Um certo senhor grisalho que nos anos 80 foi reverenciado como a maior revolução nas artes plásticas desde Warhol.

Minha missão é justa. 

Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Eli Firmeza
Filmes e trabalhos de direção e fotografia em: http://vimeo.com/elifirmeza 

19 de abr. de 2012

Juraci Esmaga-Crânio

Texto: Diego Fortes
Ilustração: André Ducci



- Vão se fuder! “Olha aí, freguesia, é o carro do sonho que está passando...”. Minha cabeça latejava. Exagerei na última noite. “É o sonho bem fresquinho...” Parece que meu coração resolveu mudar de lugar e agora está pulsando na minha testa. “Sonhos de nata, creme, doce de leite, chocolate, goiaba, é o sonho, freguesia!” Cambada de filho da puta esses caras do carro do sonho! Que direito eles têm de me acordar desse jeito? Cheguei até a sonhar com essa repetição na minha cuca. Sonhos dentro de um sonho. Putz, essa piada foi péssima! Eu devo estar muito mal mesmo...

-  Atende aí, caralho! Estava ligando para o Fonseca, um amigo policial. Sempre que eu precisava de informações da polícia, eu ligava para o Fonseca. Toda vez, ele queria alguma coisa diferente em troca. O sem-vergonha se utilizava do meu bom gosto para comprar presentes para as amantes dele. Sem-vergonha, filho duma puta (eu tô de muito mau-humor hoje), eram sempre garotas universitárias que dançavam à noite. Não eram exatamente prostitutas, eram apenas “modelos”. Ele encontrava essas meninas nas boates da cidade e as impressionava dando presentes bonitos, elegantes, de muito bom gosto. Presentes que eu comprava. Cortejava as meninas durante um mês, comia num motel qualquer e depois sumia, partia para a próxima, dizia que era casado... Bom, ele era casado. Desta vez, o preço pelas informações não era um relógio, uma bolsa, um perfume, uma calcinha ou uma jóia (até jóia eu já tive que comprar!). Desta vez, ele queria gravatas para ele.

-  Não se levante!, disse eu para o Fonseca. Eu não ia..., disse o Fonseca para mim. Nos encontramos sempre no Sal Grosso, um bar no Largo da Ordem. A mesa azeitada do Fonseca já indicava que ele havia bebido duas cervejas e comido uma porção de batatas bem fritas. Me inspecionando por cima dos seus óculos escuros (cafonas), continuou: “Tá elegante, hein, sujeito? Fora essa cara de ressaca, o amigo está muito bem vestido. Trouxe as gravatas?” “Trouxe, vamos direto ao assunto e eu não sou seu amigo.” “Nossa, mas o cara dormiu com a bunda descoberta hoje!” “Desculpa, eu ando bebendo muito desde o carnaval... Não é com você. Pra quê você quer essas gravatas afinal de contas? Resolveu mudar de time?” “Que é isso, rapaz? Essa gravatas são para mim mesmo. A Salete, minha companheira (Argh! eu odeio quando alguém chama a mulher de companheira!) está meio contrariada comigo. Ela não diz nada, mas eu senti que a chama da paixão está esfriando. (Argh, chama da paixão, não...) Então, resolvi dar uma incrementada no “visu” (“Visu”?!? Esse cara tá de brincadeira comigo...) “Sei...”, eu disse, “e o que você tem para me dizer sobre a Naomi Sueli?” “Porra, gostosa, hein, rapaz? Judiação um rabo daquele gelado em cima duma mesa de autópsia... Mas é isso aí, aquele necrotério sempre tem uma boazuda lá. É impressionante como os caras ficam selvagens por causa de uma mulher bonita.”

-  “Foco, Fonseca!” “Tá certo. Olha, foi estrangulamento mesmo. Tomou-lhe um soco na fuça e depois o cara estrangulou ela.” “Alguma digital no apartamento do meu cliente?” “Não, só dele e da mulher. Mas eles não estavam em casa, o vídeo da segurança interna do edifício mostra os dois chegando um pouco depois do assassino ir embora.” “Ele aparece no vídeo?” “Aparece de capuz. Entrou no prédio com uma cópia das chaves, passou reto pelo porteiro e foi embora uns dez minutos depois de chegar.” “Vocês já têm algum suspeito?” “Porra, mas eu tenho que fazer o serviço inteiro pra você, cara?” “Tem ou não tem?”

-  Tem um trocado aí, tio? Ai, Largo da Ordem... nossa conversa é constantemente interrompida por pessoas pedindo dinheiro ou vendendo pulseiras ou, pior, perguntando se você gosta de poesia! Poesia... francamente... Hippies, góticos, bêbados e estudantes do ensino médio transitam por este zoológico a céu aberto - um aglomerado de botecos emoldurados por duas igrejas - acredite se quiser!

-  E aí?!? Vocês têm um suspeito?, reforcei. Fonseca fez uma pausa, sentou mais perto de mim e disse: Deixa eu te contar uma história, Lucky. Um ano atrás, havia ali na Cruz Machado um time de meninos que vendiam pó pro povo que parava com o carro ali e pros clientes das putas. Era um negócio organizado! Os caras distribuíam a droga com muita eficiência, tinham fregueses fixos, longas horas de serviço, pagavam o da polícia direitinho e a coisa só se expandia. Os caras da polícia que tavam recebendo deles até fizeram vista grossa quando eles começaram a traficar crack - eles pagavam bem e nunca atrasavam, chiar pra quê? Começaram a marcar alguns territórios do Centro com o desenho de uma caveira rachada feito com giz. Ficaram conhecidos como Os Esmaga-Crânios. Eles começaram a se organizar em hierarquias e abaixo do chefe geral tinha um gerente, um braço direito do cara, um tal de Miguel Pacotinho. Pois o tal do Pacotinho resolveu passar o chefe pra trás. De leve. Só pra ver até onde ele podia chegar. E depois de seis meses tapeando o chefe nas contas, começou a organizar um motim pra ele assumir a coisa toda. O dinheiro que ele desviava do chefe, ele redistribuía por toda a galera. Uns vinte e pouco neguinhos. Um dia, o tal do chefe fez uma festa pra essa galera. Um churrascão com cerveja e pinga numa chácara em Piraquara. Diz que o sujeito foi embebedando todo mundo e lá pelas duas da manhã, quando os caras se afastavam do bando pra ir mijar no mato, ele estrangulava um por um no escuro. Estrangulava ou esmagava os crânios dos carinhas. Levou umas duas horas pra matar um por um. Deixou o Miguel Pacotinho pro último. Mas matou todos, rapaz! E não usou uma arma! Tudo na mão! Fudido esse cara!

-  Caralho... Ele acabou com o bando inteiro? “Acabou. Pra não sobrar ninguém dos traíras que tavam querendo acabar com ele. Deu um puta dum exemplo. Parece que agora só trabalha sozinho. Só com morte encomendada. O pessoal lá dos lixeiros deve ter contratado esse cara...” Levantei de supetão, o Fonseca me segurou: “Ô! E as minhas gravatas?” Estão aqui. Três gravatas finíssimas pra ver se aquele caso perdido de homem conseguiria reacender a chama da paixão com a Dona Salete. “E o nome dele?”, indaguei, já de pé. “Juraci. Juraci Esmaga-Crânio.” “Juraci?!? Mas Juraci é nome de mulher...” “Será? Não sei, acho que serve para os dois...”

-  Pois não? - atendi o interfone. Moro num conjunto residencial na periferia. Pois é... O interfone é meio baixo e faz um chiado, mas eu reconheci aquela voz. “Posso entrar?” Nem respondi, apenas apertei o botão e fiquei imaginando o porquê daquela visita e como ela me encontrou. Chegou na porta e quando eu abri, Melinda já foi entrando. “Olá, Lucky. Então é aqui que você mora atualmente?” “Como é que você me encontrou?” Ela não me responde, apenas começa a passear pelo apartamentinho (o passeio é breve, o trajeto é curto) e segura as coisas que vê numa investigação tátil. “Você era mais asseado quando morava comigo, Lucky... Quem vê um homem tão bem vestido como você não consegue imaginar o chiqueiro em que você vive. Que falta que eu te faço...” “Onde você foi no baile de carnaval? Você sumiu...” “Ah, eu precisei ir embora correndo.” Melinda fica olhando para o relógio com certa frequência. Você está atrasada para alguma coisa?, eu perguntei. “Não... Mania... Você não vai me oferecer nada pra beber?” “Eu tenho uísque, vodka, vinho do porto e suco de maçã.” “Suco de maçã?” “Eu procuro me manter saudável...” “Vinho do porto, por que não?”

-  Opa! - quando volto da cozinha com dois copos americanos com um dedo de vinho do porto em cada um, encontro Melinda só de calcinha sentada no sofá da minha sala. “Oi”, ela me diz. “Oi”, digo eu. “Será que você não quer se sentar aqui do meu ladinho?” Tenho que tirar alguns livros empilhados do sofá. Tento, mas logo que me aproximo, ela me puxa pela nuca e me deixa ajoelhado na frente dela. Um devoto com o rosto na altura dos seus seios. Ah, que saudade daqueles polpudos seios! Sigo as regras de etiqueta e beijo primeiro sua boca, os seios teriam que esperar. Nos beijamos com força, com desespero, como se tivéssemos sobrevivido a um desastre nuclear. No meio da saliva e pele quente, sinto uma lágrima tocar minha boca. Melinda chora. “O que foi?”, pergunto eu com uma candura contrastante ao meu ímpeto anterior. “Desculpa”, ela diz... “Desculpa?”

-  Ugh! - não consigo... respirar... Sinto mãos enormes como dois cachos de banana se fechando contra o meu pescoço. Meu agressor era, sem dúvida nenhuma, o Juraci Esmaga-Crânio. Melinda se levanta calmamente cobrindo os seios com a roupa amassada. Juraci me espreme a goela e eu não consigo reagir porque ele está atrás de mim. Tudo começa a ficar meio branco. Melinda deixa o apartamento correndo descalça.  Juraci não faz um ruído - está me assassinando de forma muito profissional. Muita... tontura... tento... levantar... (Uma pequena interrupção: sabe uma coisa que nem sempre os estilistas escrevem nas revistas especializadas? Eu vou dizer: antes de comprar um paletó, certifique-se que ele tem um bolso interno. Acreditem, é muito mais útil do que vocês imaginam.) Levanto... paro de lutar com as mãos gigantes desse brutamontes e alcanço uma navalha de dentro do bolso interno do paletó.

- Aaaaahhhh!!! Resolveu fazer barulho agora, filho da puta? A lâmina entra no olho direito do Juraci como se eu cortasse gelatina. Não sei como eu tive tempo de pensar nisso, mas me veio à cabeça “Um Cão Andaluz” do Buñuel e do Dalí... A falta de oxigênio me pôs meio surrealista. Ele me larga. Caio no chão feito um cadáver e só consigo ver ele saindo correndo do apartamento com a cara toda ensanguentada. Deve ter achado que eu morri porque assim que eu caí no chão, eu bati a cabeça e apaguei. Tum!

Diego Fortes
É ator, escritor, tradutor e diretor. Nasceu em 1982. Bacharel em Comunicação Social, tem passagens pela Escola Técnica de Formação de Atores da Universidade Federal do Paraná, pelo Ateliê de Criação Teatral e entre diversos outros. Fundou A Armadilha - cia. de teatro em 2001, companhia pela qual montou os espetáculos Marias (2004), Café Andaluz (2005), Os Leões (2006), Bolacha Maria - um punhado de neve que restou da tempestade (2008) e Jornal da Guerra Contra os Taedos (2009). Em 2010, escreveu e dirigiu - com a colaboração da artista mineira Grace Passô - a peça Os Invisíveis, pela qual recebeu a segunda indicação à Melhor Direção do Troféu Gralha Azul. Mantém contato colaborativo com autores de outros países latinos.

André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com

18 de abr. de 2012

O Lobisomem de Jacarezinho

Texto: Florestano Boaventura
Arte: Bruno Oliveira


Minha primeira passagem por Jacarezinho foi em sessenta e três quando filmaram “Sugar Loaf” na cidade. Sempre fui fã da atriz “Rhonda Fleming” e era a oportunidade única de vê-la de perto. Tive a sorte de conhecê-la na Feira das Nações, quando o elenco aproveitou para passear. Guardo o autógrafo até hoje, rabiscado no guardanapo de um pastel.
Esta semana publicaram uma matéria sobre o tal lobisomem. Mas será que ninguém avisou aos jornalistas que onde há um, há vários?
Só eu conheço quatro. O compadre Nito – irmão do Francelino do Monjolinho, que sempre assa uma costela de padre franciscano quando apareço por lá na Festa do Parapente – precisa ver que bonito fica o céu, coalhado de atletas. De longe parecem gaivotas.
Nito é vizinho, inclusive acho que também responsável, pela transformação do Tonico “Dente”, num dos lobisomens mais vorazes e famintos que eu conheço. Dois metros de pura banha e pelos. Tonico é capaz de devorar um banquete de três reis momos em menos de dez minutos.
Ele e Nito trabalham durante o dia nos canaviais e me falaram que existem muitos outros camuflados na cidade. Contaram-me até de um lobisomem crossdresser que participa de desfiles de criaturas transformistas em eventos internacionais de Santo Antônio da Platina.
Outro que conheço é o João Picanha, do açougue. Ele vende, discretamente, carne de humanos – moída, ninguém percebe a diferença. Fornece, inclusive, a comida para o encontro anual dos lobisomens lutadores de Vale Tudo que acontece todo mês de Agosto em Cambará, cidade vizinha. Sempre que viajo a Jacarezinho, volto com um bom estoque de carne humana. O “Jão” prepara bandejinhas só com dedos e orelhas. Prontos para encaixar no espeto e enfiar na churrasqueira. 
Me parece que esta fera vista pelos moradores, usando boné, trata-se do compadre Aparício, da Rua Paraná. Sempre com o bonézão do SENAC enfiado na cabeça. Dá aula para alunos dos cursos de enfermagem e durante a noite faz plantão na Santa Casa. Não sei o que pode acontecido – de repente bebeu demais na festa da padroeira ou contraiu gripe aviária. Os sujeitos acham que porque são lobisomens, estão imunes a todo tipo de doença.
Tô falando, mas nem sei se é isso. Preciso ligar para Nito, Jão... Eles devem saber melhor. Coitado do compadre Aparício. Daqui a pouco a mídia esquece isso. O duro é que apareceu até no Fantástico. Garanto que neguinho já vai vender camisetas e broxes do lobisomem, na feira, esta semana, por lá. Se bobear, já está até na internet.

Florestano Boaventura
Editor de uma revista de cordel, com temática horror, chamada LODO. A publicação circula  pelos becos de Curitiba desde 1948, e foi relançada junto com a LAMA nº 2 em 2011.
Alguns contos podem lidos em: www.revistalodo.blogspot.com.br.

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/oitoart.

17 de abr. de 2012

Tio Alfredo odeia comunista

Texto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Danilo Oliveira


Alfredo é o nome desse tio esquizofrênico, que acabei de visitar na ala psiquiátrica do hospital. O irmão mais novo de minha mãe. Recordo-me de quando eu tinha nove anos e peguei o machado do opa para matar o gato do vizinho:
– Oh! Nuno, não machuca o bichano, é maldade! – Apareceu ele me repreendendo.
– Ah! Tio Fredo, você não sabe que esse gato é comunista?
– Comunista?
– É! E você sabe que comunista conjura com o demo, não sabe?
– Comunista? - Tio Alfredo tomou o machado da minha mão e trucidou o gato.
– Tio, você é um herói! Agora precisamos nos livrar dos vestígios, jogar o corpo lá no rio. Se não fizermos isso, um exército de comunas virá atrás de nós!

            Em outra ocasião, flagrei um moleque roubando frutas de nosso pomar. Sorrateiramente, chamei o tio Fredo e denunciei o rapazote:
- Olha lá, Tio, um comunista roubando nossa comida, pode isso? – O tio Fredo foi até o paiol e voltou com um facão em punho; passos firmes e silenciosos em direção ao surrupiador de ameixas. Quando o garoto percebeu, já era tarde; pulou da árvore e torceu o tornozelo; esboçou uma fuga, mas foi golpeado no ombro, depois nas costas, no pescoço – retalhado por completo e despojado no rio.

            Tio Alfredo foi um grande aliado contra os “comunas”, seu entusiasmo me contagiava, devo admitir. Convenientemente, a violência do rio levava todo crédito pelos invariáveis desaparecimentos.

Cinco anos atrás, estava eu espionando minha irmã mais velha com o noivo, em plena intimidade no banco de trás do carro. Dei a volta pelos fundos da casa e espreitei até a lateral do veículo, para enxergar melhor o que faziam. Acontece que João, o noivo, me viu; alcançou-me, antes que eu entrasse na casa, e começou a me surrar. Tio Alfredo apareceu assutado:
– Pára, João! Vai machucar o menino Nuno!
­– Tio Fredo, descobri que o João é comunista! – Pow! Uma sarrafada na nuca, outra na têmpora. Olga chegou para acudir, mas seu noivo morreu ali mesmo.

            O tio Fredo foi para o confinamento no hospital. Apesar do flagrante, sua mente suscetível e o fato de estar defendendo seu sobrinho, atenuaram o julgamento. As famílias também se conformaram – uma fatalidade.


Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

Danilo Oliveira
28 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com.


16 de abr. de 2012

Cemitério

Texto: Celly Borges
Ilustração: Fabz

Eu andei por aquelas ruas, caminhei todas elas. Sozinha.
Minha boneca me acompanhou todo o tempo. Ao meu lado ela seguia a passos rápidos. Ela me olhou e apontou, e aqui estou eu, na porta da casa das pessoas mortas.

Esperei por um minuto e o portão foi aberto. O moço vestia uma roupa muito bonita, mas estava rasgada. Mamãe sempre me disse para não usar nada rasgado, pois as pessoas poderiam falar. Meu vestidinho florido estava intacto.

O moço mostrou o caminho. Havia muitas camas em todo o salão, e em cada uma, uma pessoa dormia pela eternidade.

Vendo que eu me demorava em alguns pontos, ele me esperava tentando sorrir para conquistar minha amizade. Que triste era ter um sorriso falso. E olhos que demonstravam isso.

Chegamos onde ele queria. Mostrou várias camas, todas pequenas. Todas ocupadas, todos descansando. E eu sorri. Havia feito um bom trabalho na escola com os doces envenenados.


Celly Borges
É editora do selo Fantas, revisora, autora, e escreve resenhas no blog: Mundo de Fantas


Fabz
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: flickr.com/fabz

14 de abr. de 2012

El baile de los locos

Texto: Otavio Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves




- Nenhum lugar pra ir. Ninguém pra matá.
- Dia chato, né, man.
- E se a gente saísse por aí atrás de um pózinho mágico e de um pouco de diversão?
- Faz tempo que a gente não se diverte, hein?!
- Vâmo dá uma voltinha, então.
Afirmativo como um macho no cio catei um punhado de balas de prata que estavam na primeira gaveta da mesa do escritório e meti no bolso do casaco. O Florestano sempre me disse pra nunca sair de casa sem elas, ainda mais em tempos de fim do mundo. Criaturas estranhas costumam sair às ruas nesses dias de apocalipse. Carreguei a Jéssica com as pontas ocas que tinham ali por cima. Meti a cobertura na cabeça. Fui dar uma mijada rápida e por acaso dei uma olhada no espelho do banheiro. Parecia que a velha cara não tinha mudado nada. Um pouco mais soturno e sábio, diria alguém que já morreu. Os olhos mais fundos e enfiados pra dentro do crânio, os lábios mais secos e duros, lembrando de longe o Clint Eastwood, mas com uma leve e destoante diferença: o sorriso tinha voltado aos dentes. Os velhos erros tinham ficado pra trás.
Lufus
Por um momento a imagem daquele velho safado passou pela mente. Alguns meses sem vê-lo e eu nunca tinha pensado na sua ausência. Talvez ele devesse voltar, talvez não deixe ele lá, man. Cocei o nariz. Chupei os dentes fazendo aquele barulhinho agudo e estridente. O ar passou fácil pelos buracos. Passei o pentinho vermelho na barba.
- Vâmo, man. Cê parece que vai visitá a vovozinha.
Por que a Jéssy está sempre certa?
- Olha aqui, beibes. Um pouquinho de vaidade não vai matá ninguém, ok? Tô velho e isso parece bom.
- Humpf... Pra mim você continua o mesmo idiota engraçadinho de sempre!
- Hehe. Gosto quando você fala assim.
Ela sabe como me agradar. Sempre na medida certa. Um pouco mais de cinismo e ironia e ela seria um daqueles canas da ditadura que gostavam de bolinar criancinhas e correr atrás de meninos jovenzinhos vestidos com camisetas do partidão e fazer perguntas imbecis.
HAHAHAHA
Esse pensamento me fez soltar uma gargalhada animalesca. Gosto de imaginar aqueles cretinos torturando as pessoas, sendo machões em porões de prédios abandonados, no escurinho, longe das esposas e das crianças, e da família que vai perguntar no almoço de domingo como anda o trabalho, e o imbecil vai ter a cara de pau de dizer que anda tudo bem hahahahaha, que estão capturando inimigos da nação pelas ruas papai é um herói! Eu, o Flores e o Lopes poderíamos assá-los num sete de setembro enrolados em papel alumínio hahahahaha feito peixes com os olhos esbugalhados e a língua de fora pedindo perdão que do caralho, com a bandeira nacional sobre a mesa onde pingaríamos nossas babas e chuparíamos os ossinhos dos cretinos, e lógico, aos uivos, brindaríamos com sangue.
HAHAHAHA
- Seria bem divertido, né amores?!
- Claro, man. Claro que seria.
Ela diz isso rindo com o canto da boca como faz o Florestano. Mas com ela não me irrito. Nem com o Flores. É que com ele é diferente. A risada dele é sempre sinistra. Parece que esconde o real motivo de estar rindo você é sinistro, sabia disso, Boaventura? Pergunto pro espelho que me olha sem entender nada.
- Será que dá preu tomá uma cerveja que tá na geladeira antes de sairmos?
- Por que não?
- Sei lá... bateu uma vontade de dá uma olhada pela janela e fumá um cigarro... fica olhando a Boca Maldita.
Acendo um cigarro e vou em direção à janela. Abro. Venta muito. Olho pra baixo e dá vontade de sair voando.
- Você ainda tem esperança.
- Não.
Não há nada pra se contemplar dali de cima. Só o barulho da noite. Aperto com força o gargalo da garrafa e viro de um só gole a long neck. Descemos as escadarias do Edifício Asa e muitos barulhos preenchem o silêncio. Estupros. Violências veladas. Pequenos furtos de sensações que vazam por debaixo das portas. Dez andares de sinistros sentidos. No oito paro pra ouvir um velho gemendo de dor. Como se rastejasse do quarto ao banheiro em busca do remédio que vai fazer seu coração voltar a bater. Quinze segundos e o velho uiva baixinho como se lhe tivessem tirado algo. Encosto a mão na porta. Eu poderia entrar e acabar com isso de uma vez. O sofrimento do homem não me interessa, apenas o quadro que foi pintado quando ele quase chegava ao banheiro. A mão estática sobre a tampa da privada. Os olhos de desterro. No fundo alguém uiva. Desço. Gritos nos corredores. Muitas pessoas matam sem que saibamos. Tenho certeza que nos tapetes das portas de entrada o pó poderia nos contar o que houve. Mas já sabemos, não é mesmo? Não há o que contar. No 202 uma mulher grita com uma criança. Sabe aqueles gritos? Aqueles gritos que nos forçam a desabar e com força descomunal resistimos até os joelhos estilhaçarem em pedaços? A Jéssica se contorce. Por que ela sabe. Não há lugar pra ir. Algo explode dentro daquele apartamento. Consigo sentir. Corro em direção à porta e com um chute a arrombo. O apartamento pega fogo. Pela porta uma enxurrada de gatos foge para as escadas de emergência. A criança acuada por labaredas se esconde atrás do sofá, perto de uma mesa alta com um telefone. Estico o braço e a encosto. Ela me arranha. Os ferimentos vazam pus. Sorrimos um para o outro. Saio do apartamento e continuo descendo as escadas até chegar na portaria do prédio onde o piá da portaria abre as correspondências dos condôminos. Ele se masturba lendo uma carta escrita à mão. Não me nota. Não está nem aí. Vejo a rua por detrás da porta de vidro que nos separa da praça onde meninos jogam bola e saio correndo pra ver se ainda dá tempo de fugir. Seguro a porta que desaba sobre mim. Jogo-a de lado e piso o petit-pavé. Estou a salvo. Mais uma vez. De volta à selva.

Percorro a rua XV em direção á Monsenhor Celso. São duas da matina. Só zumbis saem a essa hora. Identifico uns quatro, cinco. Velhos conhecidos. Vendedores de almas. Me oferecem algumas, mas digo que não.
- Hoje, não, amigo.
- Hoje vamos nos divertir.
- Mas eu tenho o que vocês querem, senhores.
- Então me dê três de uma vez.
Pego o que ele me dá. Vem num saco de pão escrito PRODUTO META-INDUSTRIALIZADO.
- Meta a putaquepariu!
Ela não se agüenta e faz um comentário ardido.
- Isso é sacanagem. Ninguém fica na XV até duas da matina pra vendê esse tipo de porcaria.
- Relaxa, amorzão.
- Relaxa o caralho! Quero vê a hora que você abrí esse pacotinho e vê que se fudeu.
Coloco a mão dentro do pacote e um escorpião pica a ponta do meu dedo. Meu dedo apodrece e cai no chão. Me abaixo e o guardo dentro do saco. Enrolo o pacote e continuo subindo a rua. Pessoas sintomáticas caminham de mãos dadas. Procuram pedras pelo vão das pedras. Lá na frente um brilho. A Catedral de Curitiba. Centenas de pessoas à sua frente rezando alto. Gritam. Berram. Esperneiam.
- Que que tá rolando?
E um mendigo ri.
Pego o homem pelo pescoço e suas veias saltam pra fora feito tentáculos. Seus olhos enchem de piche e ele começa a vomitar sanglava. Deixo-o ali caído e afundo o pé na terra para entender.
Nada.
Então, vejo um velho conhecido descendo a rua com as mãos no bolso. Ele me reconhece e conversamos um pouco sobre o de sempre. Ele me conta que ainda há esperança e que posso ficar tranqüilo com relação aos acontecimentos presentes que, segundo o rádio, nada de mal vai nos acontecer se permanecemos unidos.
- Amém.
- Oxalá.
Nessa hora tenho vontade de aspirar todo o ar a minha volta e o faço. Os que rezam tombam. O brilho cessa. É a dor de ter contraído uma doença incurável.
- Largue isso!
É uma velha mania que eu tenho, a de obedecê-la.

Por cinco minutos ficamos em silêncio profundo. Então abrimos os olhos e nos beijamos. O gosto metálico e frio da sua boca me congela e me penetra. Não vejo mais o futuro. Só a música que paira sobre nós. Uma música feita por artesãos hábeis que se movem na velocidade da luz e nos invadem pelas unhas, por isso perdemos os controles das mãos e agimos feito bestas indomáveis por anos a fio.
- Man! Atrás de nós! Corre! Rápido!
Dobramos sete esquinas seguidas feito nós cegos, sem parar de correr, até que uma moça nos pede informação. Isso nos acorda por um instante. Estamos na esquina da Cruz Machado com a Ermelino de Leão. Sentimos a Encruzilhada como parte do nosso projeto genético. A música nos percorre e nos deixa mudos. Um desejo insaciável aflora. Saco a Jéssica. Movimento de luz. Indescritível prazer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes aperto o gatilho e deixo transpirar a vontade. O suor inunda o asfalto. Oito faces partidas com os machados das pontas ocas dos projéteis de prata.
HAHAHAHAHA
- Quer saber que música toca entre um pensamento e outro?
HAHAHAHAHA
Deixemos o riso tomar conta desses últimos milésimos antes que partamos.

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  


13 de abr. de 2012

Ensinando Respeito

Texto: M.D.Amado
Ilustração: Lord Velprost




Me deixar jogado aqui nesse canto mofado, amarrado nessa camisa de força não vai mudar nada do que eu fiz. E não vai mudar nada que aquela vagabunda fez. 
Não me arrependo em absoluto. Depois de toda a minha vida dedicada a ela, depois de tudo que sacrifiquei por ela, me golpear daquela forma? Não... Não me arrependo mesmo. 

Com ela, o que eu fiz foi pouco. Ela sofreu pouco antes de morrer. Pena que não tinha muito do ácido e mal deu para queimar seus seios – gargalhadas. – Arrancar suas unhas foi interessante, mas nada se compara ao branquinho da carne se abrindo e logo em seguida sendo coberta por sangue, em cada pedacinho que eu cortei. 

E ele? E ele então? Matar não seria nada demais. Cortar o pau fora também não. Sou um gênio – gargalhadas –, um gênio. Nunca mais vou esquecer do pavor em seus olhos. Sentado naquela cadeira, sem poder se mexer e tendo que comer cada pedacinho dela – gargalhadas –, cada pedacinho daquela vaca. 

Acho que agora meu filho aprendeu a me respeitar. Nunca mais vai comer outra mulher minha.

M.D. Amado
Conheça seu livros de contos, Aos Olhos da Morte: www.estronho.com.br/olhos

12 de abr. de 2012

Almoço, 13:00. Bem depois do pólo norte derreter.

Texto: Rodriane DL
Ilustração: Sueli Mendes




Não consigo acostumar com esses ovos em cápsulas, rosqueados com tampas que parecem com as tampas das garrafas antigas. Temperados e coloridos de acordo com cada sabor, queijo, chilli, pizza, páprica, galinha caipira. "Galinha?". Ficam milimetricamente redondos como se o sol tivesse caído bem no meio do mar congelado onde dizem, ficava o pólo norte. "Onde os ursos brancos nadavam atrás de sua comida". Há um mês o noticiário mostra os hindus chorando seu Deus morto, desesperados com a mão no rosto pelas ruas sujas de Mumbai, depois que todo o rebanho do planeta foi dizimado por mais uma peste qualquer. Correria e superprodução de carneiros, porcos e aves para saciar a vontade carnívora do planeta. " Que serão dizimados por outra peste qualquer". Um mês atrás ela saiu para visitar os bebês, não voltou e eu não entendi nada. Toca o telefone e dizem : " Só podemos nos responsabilizar por bebês sem amparo até os seis meses de produção, mas no caso do senhor..." Desligo. Os rumores do que eles fazem com os bebês não são bons. Não me importo. Frio como o pólo norte há cinquenta anos. "Onde um urso branco rasga a pele de um bebê leão marinho sem dó, é alimento". Dentro do prato preto aquele ovo parece um buraco no mundo. Esfriou enquanto eu observava crianças indianas sendo consoladas por autoridades. Três meninas e um menino. Não ligo de volta. A luz que indica visitante entrando no edifício acende na minha cara. " Bem na hora do almoço". Desligo a tv, porque não aguento tanto escândalo por causa de um Deus morto. Batem na porta. Estou desanimado. Peço a identificação ocular. É ela.
- Ligaram do centro genético.
- Não tenho ido até lá...
- Você saiu para ir até lá...
- Mas não fui. Por que você...?
- Não quero mais.
- E o que eles vão fazer ?
- Você também não se importa.
Desânimo. Visita à toa. Desisto do ovo. " Nada mais poderá estragar minha vida". Recebo o boletim do dia durante o banho. "Por que diabos assinei essa porcaria?".
" Não é recomendado andar sem proteção hoje na cidade, índice de poluição acima do recomendado..."
"Merda!"
" E na Índia...". Apago. " Porra, malditos indianos, que saco." Agora só me resta sair de casa, mas tenho que vestir essas roupas ridículas e essa máscara sufocante. Desisto. Sento na frente da tv e um canal de inutilidades mostra urso polares adormecidos há cinquenta anos. Adormeço.


Rodriane DL
Publica seus contos no blog: caramelosestragados.blogspot.com

Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog: 
bigandlittledreams.blogspot.com



11 de abr. de 2012

Carta

Texto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Elis Marina B



 Lu,

 Faz tempos que não nos falamos, seja por mensagem ou ao vivo. Escrevo agora por sugestão de meu analista. E de meus amigos. E de eventuais desconhecidos, que provavelmente mencionaram algo assim ao escutarem passivamente minhas elaboradas dissertações alcoolizadas a respeito de nosso relacionamento e o efeito que teve em minha vida. Até hoje. Na verdade, é uma sugestão antiga, mas que levo a cabo devido aos acontecimentos recentes. Sempre tive muita coisa para lhe dizer, mas nunca tive a coragem. Acho que agora chegou a hora. Não planejei isso, foi uma situação em que a vida me colocou. Você e o dr. House diriam que a culpa por nossas ações está em nós. Gostaria de lhe perguntar ao vivo se ainda acredita nisso. Mas este será mais uma dentre as várias coisas que não farei. Eu lhe vi recentemente. Fiquei impressionado em notar como não tinha mudado nada. Era como se o tempo não tivesse passado para você. Sua beleza permanecia a mesma, assim como o efeito de sua presença em mim persiste. Em meio à tristeza, me espantei ao constatar um sincero alívio de que você não podia me ver. Sei que nunca gostou de homens fracos ou sinais de vulnerabilidade em geral, e também sei que seria incapaz de esconder minha submissão perante você. Quando disse que lhe amava há anos, naquele restaurante, chorei. Você me olhou com misto de constrangimento e medo. Talvez até nojo. Naquele instante, toda emoção se transformou em um ato consciente de conter uma gafe social. Você reagiu a minha declaração como se eu tivesse peidado num elevador cheio de gente e ter me feito de desentendido logo em seguida. Acho que você tivesse me visto ontem teria tido a mesma reação, ou não. Se tem algo que aprendi é que as pessoas mudam no decorrer dos anos. Não me refiro a uma transformação radical, como se fosse um Gremlin, mas a um fenômeno que chamo de “adaptação”. As pessoas se adaptam a novas circunstâncias, sabe? A partir daí, para sobreviver, alguns aspectos de sua personalidade, que se estavam dormentes, surgem com força e outros, que dominavam suas ações, perdem fôlego e recuam. Quando estávamos juntos, me guiava pelo instinto e pelo risco. Acreditava nas possibilidades que apareciam à minha frente como meras consequências de quem eu era, e não de minhas ações. Era como se as coisas acontecessem porque eu as merecia, porque eu havia nascido com um dom, porque eu tinha sido tocado por Deus. Tinha você ao meu lado e toda vida pela frente. Estava errado. Não vou me lamentar, porque sei que nunca gostou disso. Apenas digo que minha “adaptação” me tornou alguém mais racional e inibido. Amargurado, para ser específico. Percebi que não tenho um dom, nem fui tocado por Deus. Era apenas um cara que teve seu momento e, sem perceber, o perdeu. Alguns de nós seguiram adiante, e eu fiquei para trás. Claro que isto não me espanta; só não esperava que fosse acontecer comigo. Mas ninguém espera o inesperado. Daí, o fato de ser inesperado. Você sabia que ia acontecer? Duvido. Para o horror mútuo, passei anos lamentando o fim de nosso relacionamento. Você se afastou, por quaisquer que fossem seus motivos. Soube de um amigo que você achava que a distância “ia me fazer bem”... Você realmente acreditava nesta merda? Sinceramente, você falava tanta merda às vezes que me questionava se realmente acreditava no que dizia ou se estava rindo por dentro. Só digo que fico feliz por nunca ter jogado pôquer com você. Ou melhor: escrevo, porque dizer não adianta mais. Acompanhei sua evolução por anos, nas sombras. Enquanto escutava por conhecidos em comum ou descobria por acidentes sociais, a raiva se tornou sangue fluindo quente em minhas veias me alimentando dando forças motivando. Sua indiferença quanto à minha dor era herética. Estabelecia que meus sentimentos não eram apenas inválidos, mas irreais. Como as pessoas não podiam compartilhar daquela dor, da humilhação? E você, capitaneando a caravana da minha anulação. O que para os outros era melancolia, para mim era luto. Era verdade. Era real. Era sangue quente vermelho. E todos me encarando como se eu estivesse falando de discos voadores e do coelhinho da páscoa. Agora, o tempo passou e, finalmente, estou certo. Não é melancolia mais. É luto. Finalmente, você morreu em minha vida. Também na sua. Você está morta e eu estou livre. Com esta carta, eu lhe mato de vez. Participei de seu funeral para me certificar de sua morte física. Garanti que esta acontecesse quando lhe surpreendi em sua casa e enfiei aquela faca em sua barriga. Admito que temi que tivesse sobrevivido, apesar de observar seus olhos perderem a vida à medida que colocava minha arma dentro de você. Eu sei que, naquele momento, também morri e, mais uma vez, entramos em sintonia. Você abandonando a vida, e eu aquilo que me restava de espírito. Àquele que encontrar esta carta, espero que entenda que tudo o que fiz foi por amor.

 Sinceramente, M.  

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

10 de abr. de 2012

Caixas

Texto: Thiago Tizzot
Ilustração: Dea Lellis




O chinelo arrastava no concreto e fazia um barulho familiar. Olhou para seus pés e viu o tecido, veludinho com listras verdes sobre um fundo bege. Lembrou-se do roupão, de mesmo tecido que ganhara de sua falecida esposa. Usou durante anos aquele roupão e o chinelo, depois que Efigênia se foi, um dia decidiu que faria o jantar sozinho, seria sua independência. Montou o pão, queijo e presunto, passou manteiga na frigideira e até hoje não sabe como o braço do roupão entrou em chamas. Agora sempre come lanches congelados. O chinelo persiste, arrastando no concreto da escada que leva a garagem.
Abriu a porta, pilhas de caixas de papelão, era difícil caminhar por entre elas. Sorriu diante da idéia de que aqueles quadrados de papelão embolorado e mal cheirosos, guardavam suas memórias, seus anseios, seu sofrimento. Ali estava o resultado de uma vida inteira de escrita. Garranchos que ele desferia contra as folhas desde a sua infância. Lentamente foi retirando as caixas, seus guardados como gostava de dizer, e colocando fora do caminho. Procurava por um texto específico, veio durante a sua insônia. Uma estorieta que escrevera há muito, recordava quase por completo, mas o final lhe escapou. Mais de semana que tentava lembrar, mas hoje tinha sido derrotado e decidira descer e enfrentar a tarefa. Estava a meio caminho, calhara de o dito manuscrito estar no fundo, longe da entrada. Encontrou uma caixa abarrotada de livros, Dickens, Flaubert, Cervantes, todos estragados. Devorados por traças. Guardou os tomos devorados com delicadeza. Anotou no pequeno bloco que sempre levava no bolso para comprar algum veneno para resolver esta situação.
Avistou a caixa, não tinha nada escrito, nenhuma marca, era igual a todas as outras. Mas ele tinha certeza que o texto estava no seu interior. O cheiro de bolor agredia seu nariz e era até difícil respirar. Os braços já estavam cansados e sentia os pés suados dentro do chinelo. Sentou para retomar o fôlego. Sentiu a unha cumprida sobre a pele peluda enquanto coçava a barriga. Reparou que muitas caixas estavam carcomidas, furadas, roídas pelas malditas traças. Praticamente vazias.
Pegou o lenço para limpar o suor da testa. De repente sentiu os chinelos vibrarem, as pilhas rangeram e por um segundo imaginou as caixas o soterrando. Morto por suas memórias, tinha um quê de poesia. Mas não escrevia poesias, os versos eram um labirinto do qual nunca encontrava a saída. O chão tremia, precisava sair dali. Era um terremoto. Quem poderia prever, um terremoto no Mercês! Tentou caminhar, mas a bagunça era enorme. Duas pilhas caíram a sua frente. Papéis roídos, esburacados e carcomidos se espalharam para todo lado
O bicho era enorme. Surgiu por trás do entulho, a cabeça era achatada e cheia de pequenas, antenas, seria isso? Moviam se como o bigode de alguém que fala demais. A boca era somente um buraco, um vazio que se contraia a todo instante. Era imensa, muito maior que ele que tinha aquele corpo que lembra um barril. A coisa atacou, pulou sobre ele e o chão tremeu. Foi arremessado para trás, caiu sobre as caixas e bateu a cabeça, perdeu os chinelos. Tentou se levantar, mas seus pés já estavam sendo sugados pela enorme traça.
Riu, um riso alto, desesperado.
- Maldita, matou Dickens, Flaubert, Cervantes. Matou a todos e agora veio me pegar – gritava freneticamente – pois que seja. Já devorou minhas memórias, que devore minha carne!
Lentamente seu corpo era engolido pela boca, aquela enorme boca, não lutava deixava que o bicho se alimentasse. Sentia que sua carne era molhada por um suco pegajoso, queimava, esfacelava-se, mas logo depois não sentia nada. Os pés, as pernas, a barriga. Tudo se desfazia no ventre do bicho que se banqueteava com seu corpo.
Anos depois, quando abriram a porta da garagem nada mais existia. Tudo que encontraram foi um par de chinelos. De veludinho com listras verdes sobre um fundo bege.

Thiago Tizzot
Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

Dea Lellis

Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/metalpreto