16 de dez de 2011

Cortes e Costuras

Texto: Fabiano Vianna
Ilustração: Danilo Oliveira


 
Mirna está lá dentro cortando tecido para costurar um vestido. A lâmpada é fraca. Não sei como Mirna vive em paz nesta casa. Eu teria muito medo de morar aqui. Quem costura quando Mirna costura? Eu acho que ela não tem dinheiro para pagar uma diarista. Um inseto caminha no ombro do sofá. Não encontro uma vassoura para assustá-lo. A vitrola está ligada. Ela procura outro disco tão bom quanto o primeiro. A garrafa de vinho do Porto está vazia. Num dos cantos da sala, uma pequena árvore de natal despedaçada. Ela demora em terminar a confecção do vestido. Certo dia me falou que a avó morreu aqui. Olho para o corredor e tenho a impressão de ver a sombra da velha ali. O papel de parede está descascando. Sinto vontade de arrancar uma grande lasca como se ele fosse uma pele. A sombra da velha se movimenta no corredor. Minhas unhas estão pintadas de Havana. Ouço barulhos de passos no andar de cima. Uma vez ela me contou que o corpo da avó foi enterrado lá atrás, embaixo das macieiras. Dá para perceber claramente o que é decoração original e o que foi modificado por ela. Ando em direção ao corredor. Viro para trás e não consigo mais vê-la. Sigo a sombra que me guia pelas entranhas indigestas da casa. A música vai diminuindo enquanto eu me afasto da sala. Levo um susto com um gafanhoto que entra por uma fresta. O assoalho empenado tenta me derrubar. A casa é composta de diversos quartos que se abrem para outros cômodos. Tudo isso foi desenhado nas rugas das minhas mãos. Eu acho que ela está no final do corredor, no quartinho lá de trás, tomado por plantas. Eu digo: “Onde você está minha netinha doce? Fiz aqueles biscoitos que você gosta.” Ando com dificuldade apoiada numa grossa bengala de madeira escura. Minhas articulações artritam despedaçadas. Ela responde: “Estou aqui vovó. Costuro um vestido para hoje à noite. O corso de carnaval já vai começar. A Rua XV já está tomada de confetes e serpentinas. Ouve as buzinas?” Chego ao último aposento, mas não consigo vê-la. Sinto o perfume adocicado, mesmo cheiro de maçã que invade os aposentos da casa. Está escuro e a lua foi encoberta por uma nuvem cinza. O diagrama do molde do vestido é uma planta baixa. Ela pergunta: “O que achou do vestido? Ficou bonito?” Só vejo a barra inferior da roupa. Não há pés sob ele.


Fabiano Vianna
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, no único ano que nevou, em Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela PUCPR em 2001. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 uma revista de literatura pulp chamada Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2.
Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o site de fotonovelas www.crepusculo.com.br e o blog  www.contosdapolpa.blogspot.com.

Danilo Oliveira
28 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V.
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com/

6 comentários:

  1. massa cara!! o texto e a ilustra estão sinistros.

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  2. Muito bom cara! Adoro esse teu estilo de escrever com frases curtas! Muito dinamismo! A ilustração ficou sensacional também! abração!

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  3. Valeu pessoal! Que bom que gostaram! Estou praticando escrever contos assim com frases curtas em tom de horror para o blog. Será uma (espero) longa série. Heheheh

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  4. Meu amigo, a cada conto você se reinventa como escritor, o que é admirável e instigante. Por outro lado, sua identidade mantém-se autêntica e inconfundível. Isso é genial! Parabéns!!!

    A ilustração do Danilo é muito forte. Enriqueceu as nuances psicológicas do texto com muita propriedade. Fantástico!!!

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  5. Fabz, reitero a opinião do Daniel. Seus contos são dignos de um prisma, a mesma fonte, com nuances completamente diferentes. Muito bom!!!

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